
Já podes fazer tudo, esse pode ser o problema
Construir deixou de ser o difícil, o que deves fazer antes de começar?
Por João Coucelo
Já podes fazer tudo, esse pode ser o problema
Construir deixou de ser o difícil, o que deves fazer antes de começar?
Olá !
Quero falar de uma coisa que ando a ver à minha volta, e que eu próprio sofro disto. Com o Claude Code e os agentes consegues construir quase tudo, e isso, por estranho que pareça, pode ser um problema.
Nesta edição:
A dopamina improdutiva, o que é?
Porque caímos nisto agora ?
O teste antes de construíres.
Sinal vs Ruído da semana.
Queres saber mais? Vamos a isso!
A dopamina improdutiva
Conheço uma pessoa que passou 2 semanas a fazer um dashboard.
Gráficos, cores, números grandes, ficou bonito.
No fim a pergunta é simples: trouxe algum cliente ou fez avançar o trabalho?
Não. Ficou com um painel giro de ver, e mais nada.
Chamo a isto dopamina improdutiva.
É a sensação ótima de estar a fazer algo que parece muito avançado, parece trabalhoso e impressionante, mas que não traz clientes, não poupa tempo, não faz avançar nada.
É o brinquedo novo da semana.
Comigo é igual, por isso contra mim falo. Fiz 3 projetos que hoje não mantenho e não uso para nada, sinceramente foram tempo deitado fora. Consegui construí-los, são giros, mas neste momento não me servem de nada.
Porque caímos nisto agora?
A razão é simples, hoje construir deixou de custar.
Há uns anos uma ideia ou um projeto levava meses e uma equipa, agora pedes ao Claude Code de manhã e à noite já tens qualquer coisa de pé. Quando fazer fica fácil e barato, fazes muito mais, e a maior parte sem parar para pensar se valia a pena.
O problema é que quando podes fazer tudo, esqueces-te do que importa.
O travão deixou de ser "consigo construir isto?" e passou a ser "devia construir isto?", só que esse travão não está em lado nenhum, tens de o pôr tu.
Isto não é só comigo. Um relatório do MIT, o GenAI Divide, olhou para centenas de projetos de IA em empresas e 95% não trouxeram resultado nenhum mensurável.
O problema não eram os modelos nem as ferramentas, era a IA estar colada por cima do trabalho em vez de mudar o trabalho.
O teste antes de construíres.

O que faço hoje, e o que te aconselho, é esperar.
Antes de pedires algo novo ao Claude Code ou outra ferramenta, deixa passar umas horas ou até um dia, principalmente se for um novo projeto. A ideia que é mesmo boa continua a ser boa daqui a 2 dias, a que era só dopamina passa-te.
Depois faz três perguntas:
isto traz-me clientes?
isto poupa-me tempo?
isto é o meu projeto principal?
Se a resposta for não às 3, provavelmente não precisas disso, é o mais provável. Não é proibido construir por gosto ou para aprender, mas então chama-lhe isso, um passatempo, não um avanço no negócio.
O teu tempo é a coisa mais valiosa que tens, não o gastes no brinquedo da semana. Se queres perceber se a IA que andas a fazer traz retorno ou é só brinquedo caro, é isso que fazemos nos diagnósticos da OficinaDeIA.
Sinal vs Ruído

Todas as semanas olho para o que aconteceu no mundo da IA e coloco numa grelha simples.
Sinal ou Ruído: há aqui algo que importa mesmo, ou é só barulho que vai desaparecer em 2 dias?
Agora ou Mais Tarde: isto afecta-te já, esta semana, no teu trabalho ou é algo que vai acontecer daqui a 6 meses ou 1 ano?
AGORA / SINAL
A Microsoft pôs o Agent 365 disponível para toda a gente a 9 de junho, com a KPMG já a usá-lo à escala.
A Zhipu lançou o GLM 5.2 , um modelo aberto, com 1 milhão de contexto e livre para qualquer um descarregar. Afeta-te porque mais concorrência aberta puxa os preços para baixo.
AGORA / RUÍDO
Sam Altman e o Dario Amodei recuaram nas previsões do "apocalipse de empregos" que eles próprios tinham feito, mesmo a tempo dos IPOs das suas empresas... O Yale Budget Lab diz que não houve mudança significativa no emprego. Serve para teres cuidado com profecias de quem ganha em criar medo ou euforia.
MAIS TARDE / SINAL
O Amália, o primeiro modelo de IA português, devia sair este mês. Ainda não saiu, mas fico de olho, e quando sair testo e digo-te tudo.
O mercado de agentes de IA deve crescer cerca de dez vezes até 2030, de uns 5 mil milhões de dólares em 2024 para perto de 50 mil milhões, segundo a Grand View Research. Aprender a trabalhar com agentes agora é tempo bem investido.
MAIS TARDE / RUÍDO
O Elon Musk diz que um robô humanoide estará à venda "lá para o fim de 2027", a 20 a 30 mil dólares, quando hoje custa 50 a 100 mil a fabricar. Promessa grande mas ainda falta.
Antes de ires embora!
A última edição trouxe respostas vossas, deixo aqui duas.
"Uso a Euria e a Lumo, IA europeias que não usam os meus dados para treinar, e a Euria tem uma política de ética."
Fico contente que estas opções existam e que as uses. A Lumo, corre na Europa, encripta as conversas e não treina com o que escreves. A Euria é suíça, os dados não saem da Suíça e também não servem para treinar modelos. São alternativas a sério para quem se importa com privacidade, e fazem falta. O senão honesto, para escrever um email ou tirar uma dúvida chegam bem, para trabalho pesado os modelos da Anthropic e da OpenAI ainda vão à frente. É uma troca, dás um bocado de capacidade para ganhares privacidade e soberania, e para muita gente vale mesmo a pena.
"Quem é dono da IA, as pessoas ou os governos?"
Excelente pergunta. A minha opinião, hoje não é nem um nem outro, são meia dúzia de empresas, quase todas americanas, que têm os modelos e o dinheiro. Os governos correm atrás com leis, como o AI Act europeu, e a Europa tenta com ferramentas soberanas. Mas as pessoas serem donas da IA só acontece de uma forma, modelos abertos que possas correr e os teus dados a ficarem teus. O resto é alugares o poder a quem o tem. Por isso reparo sempre quando sai um modelo aberto, é o que mais aproxima a IA das pessoas.
Obrigado pelas duas mensagens, é disto que gosto, perguntas que me fazem pensar.
Responde a este email com um pensamento teu, os melhores entram na próxima edição.
E se achaste esta edição útil, partilha com um amigo ou colega que conheças e que ainda está a tentar perceber onde a IA encaixa na vida dele.
É a forma mais simples de me ajudar a chegar a mais pessoas.
Obrigado e até à próxima!
João Coucelo

