
A IA não te vai fazer trabalhar menos!
E porque é que o teu agente não é tão neutro como parece
Por João Coucelo
A IA não te vai fazer trabalhar menos!
E porque é que o teu agente não é tão neutro como parece
Olá !
Esta semana quero falar-te de 2 mentiras que se dizem muito, e das duas escolhas que ficam escondidas por baixo delas.
Nesta edição:
A IA não te vai fazer trabalhar menos!
Que valores tem o teu agente?
Sinal vs Ruído
Queres saber mais? Vamos a isso!
A IA não te vai fazer trabalhar menos
A promessa de trabalhar menos é a mais antiga da tecnologia, e a que nunca se cumpre.
Em 1930, Keynes imaginou que dentro de um século trabalharíamos umas 15 horas por semana. Faltam quatro anos para o prazo, temos IA que escreve, resume e decide, e ainda não estou a ver ninguém a trabalhar menos por causa disso.
Cada ferramenta de escritório chegou com a mesma promessa. O email ia poupar-nos as chamadas, o Excel as noites em cima de contas. O que o email fez foi tornar normal responder a qualquer hora, de qualquer sítio.
Quando uma coisa fica mais eficiente, não a usamos menos, usamos mais.
Com a IA ela não te tira o trabalho das mãos, promove-te. De quem faz, passas a quem vigia. Passas a vigiar uma máquina que nunca dorme, faz numa manhã o que tu farias num dia, e erra com toda a confiança, é um trabalho novo.
E há aqui uma parte que é de poder, não de tecnologia: as horas de trabalho que caíram no último século foram conquistadas com os sindicatos e o dia de 8 horas, não oferecidas pela tecnologia. Se hoje se trabalha menos, foi decisão humana.
Eu faço agentes de IA para empresas, e é por isso que digo isto: o que a IA bem feita dá a uma PME não é uma tarde livre, é mais coisas feitas com a mesma equipa.
Quem te promete a tarde livre está a vender-te uma tarde que não vai chegar.
Nada disto é contra a IA. Ela pode tirar-te o trabalho morto, o copiar e colar.
O que não te dá, por si só, é menos trabalho.
Que valores tem o teu agente?
Os grandes laboratórios de IA andam a contratar filósofos.
À primeira parece que estou a gozar, mas há uma razão.
Toda a IA carrega uma visão do mundo.
Quando não há resposta objetiva, o modelo decide na mesma, com base em regras que alguém, algures, escreveu.
Há sempre uma moral lá dentro, a questão é só se foi escolhida de propósito ou por acidente. A Anthropic construiu a "constituição" do Claude com ideias de Kant. Uns modelos seguem regras fixas custe o que custar, outros escolhem sempre o melhor resultado no fim. Escolhas morais bem diferentes.
Falou-se muito dos modelos simpáticos demais, os que te dão sempre razão.
Mas uma IA útil talvez não seja a que responde bem, é a que faz boas perguntas e te obriga a rever aquilo em que acreditas. É como contratar alguém, não queres quem diz sim a tudo, queres quem tem a lata de dizer "não me parece".
E aqui está a parte que quase ninguém diz: isto não é só problema dos laboratórios.
No dia em que pões um agente a responder a clientes, a recomendar, a decidir em teu nome, tomas estas mesmas decisões.
Até onde ele insiste? Quando discorda do cliente?
Se não decidires tu, fica decidido por acidente.
Não há ética universal que resolva isto, o objetivo não é a moral perfeita, é tornar as escolhas explícitas.
A pergunta dos próximos anos deixa de ser "que modelo uso?" e passa a ser "que princípios quero que guiem as decisões tomadas em nome da minha empresa?".
Sinal vs Ruído
Todas as semanas olho para o que aconteceu no mundo da IA e coloco numa grelha simples.
Sinal ou Ruído: há aqui algo que importa mesmo, ou é só barulho que vai desaparecer em 2 dias?
Agora ou Mais Tarde: isto afecta-te já, esta semana, no teu trabalho ou é algo que vai acontecer daqui a 6 meses ou 1 ano?
AGORA/SINAL - Continua a guerra de preços. O Grok 4.5 chega "classe Opus" a menos de metade do preço, e a Meta pôs o Muse Spark 1.1 a um quarto do preço dos rivais. O que era caro há três meses está a ficar barato, vale a pena olhar para o que andas a pagar.
AGORA/RUÍDO - A OpenAI lançou o ChatGPT Work, o "agente" que promete despachar o teu trabalho sozinho. É interessante e importante mas como viste na primeira parte, alguém tem sempre de vigiar a máquina e decidir.
Esta semana o Claude Fable 5 apareceu a dominar todos os novos índices de benchmark mas a preço premium.
MAIS TARDE/SINAL - A Unbabel, a portuguesa de tradução por IA (14 milhões do PRR), vai à liquidação, "vencida pela IA". Construíram um negócio à volta de algo que os modelos generalistas passaram a fazer de borla. O aviso para quem aposta tudo numa coisa só.
MAIS TARDE/RUÍDO - A MiniMax prepara o maior modelo aberto de sempre, 2,7 biliões de parâmetros, seis vezes o atual, para o terceiro trimestre. Quando sair, vou logo testar por agora é ruído.
Antes de ires embora
Se há uma ideia com que quero que fiques é esta: a IA não decide o que fazes com o tempo que ela te poupa, nem os valores com que age em teu nome. Se não decidires, fica decidido na mesma, só que por acidente.
Na edição passada perguntei quantas ferramentas de IA usam.
Um excerto de uma das respostas:
Uso o Claude no dia a dia, o Copilot no trabalho, o ChatGPT cada vez menos. Mas o que queria mesmo era: ter tempo para explorar as skills e os artefacts que ainda não domino.
Muito bem Inês! A ferramenta que já tens provavelmente faz mais do que aquilo que lhe tiras. O valor não está em juntar mais uma, está no tempo que dás para a perceber bem.
Esta semana a pergunta é outra: qual a primeira coisa que mudavas na forma de responder da ferramenta que usas?
Responde a este email a dizer.
Leio todas as respostas, as mais interessantes entram na próxima edição.
E se quiseres ver onde a IA já te dá jeito e onde é só barulho, faz um diagnóstico gratuito: oficina-ia.com
Chegámos ao fim desta edição da CouceloIA, obrigado por teres chegado até aqui.
Obrigado e até à próxima!
João Coucelo


